Uma formiga vermelha de vergonha.

Em um desses dias, sob o estranho clima de Brasília, com um tempo que muda com as horas e horas que não mudam o tempo, deparei-me com uma cena que não era uma briga de formigas, ou de cachorros, mas rendeu-me reflexões que me dão esperanças de tornar-me Thoreau ou Machado.

Saindo do supermercado, onde há pouco havia presenciado uma senhora sentindo-se enganada pelo resultado de uma pequena falha de comunicação de uma placa, eu refletia sobre a comunicação, e as cores, e as imagens, e a universidade, e sobre as minhas próprias reflexões. Meus olhos, passeando, esbarraram em um moleque do outro lado da porta de vidro da saída. Por sorte eles encontraram o menino, e não os seus olhos, até porque, se os houvessem encontrado, eu não saberia que expressão carregar. O garoto estava do outro lado do vidro – negro, sujo, franzino; estava descalço, suas roupas estavam sujas e ele amarrara um casaco na cintura com pelo menos uns três nós, nas minhas contas. Certamente era o medo de perder, no tempo estranho de Brasília, sua proteção (não sei se era a única; ele bem podia sim ter uma casa e outros casacos, mas ter vindo de uma cidade satélite qualquer tentar a vida no local que parece ter identidade – o Plano Piloto – e ter se esquecido de voltar).

Estava lá, com a cara colada no vidro, a boca meio aberta. Ele olhava pra dentro, e eu não sabia bem para o quê; via com a mesma expressão com que um cachorro, se a tivesse como as têm os homens, olha o frango da máquina da padaria. Se bem eu nunca ter presenciado essa cena do cachorro que espera piedade. Um cachorro de verdade não espera, certo? Procura o frango – que normalmente é algo menos luxuoso, como um osso ou restos – e acaba se atracando em alguma briga de cachorros como a que mencionei anteriormente. Entretanto, o menino.  Sim, ele carregava a expressão do cachorro para o frango, caso a tal cena dê-se de fato em alguma esquina do mundo.

Minha primeira reação foi piedade, como esperaria o suposto cachorro. Pobre menino de rua com fome. Pensei em dar-lhe meu sanduíche, ou talvez comprar-lhe aquilo pelo que a piedade clamava. E, ao conferir o que ele encarava, vi uma senhora que distribuía uns vinte pacotes de feijão entre dois carrinhos de compras. Não sei por que, ou para quê, mas ela havia comprado bastante feijão – uns dez mil grãos, talvez. Já que de nada serviria a ele um pacote de feijão cru, eu não sabia, portanto, o que oferecer ao moleque, então não ofereceria nada. Em verdade, tomou-me a curiosidade de saber o que diabos ele viu de atrativo em feijão cru, dentro do saco. Mas não perguntei, não ofereci, não nada; só saí. E atravessei as portas de vidro do mercado para vir a descobrir que eram transparentes, mas que tanto me escondiam!

A integração que as portas de vidro garantiam era só parcial. De que me adiantava distinguir exatamente o que eu via, se o mesmo não valia para o que eu escutava? E aqui me visto de Thoreau ou Machado, à gosto. Muito bom era saber que as portas me deixavam ver o garoto, analisar sua expressão, e também ver a senhora dos dez mil feijões, e até indagar sobre os por quês e para quês dos dois. Mas era só isso o que elas tinham-me a oferecer: contemplação de ambas as partes, e ainda alguma indagação. Os outros sentidos estavam adormecidos dentro da caixa-supermercado, e o que eu ouvia ou sentia era bastante previsível. Atravessar as portas foi a revelação. As ruas cheiravam a xixi, e eu agora podia percebê-las. Mas o mais impressionante foi poder ouvir o franzino, de cara ainda colada no vidro. Ele contava. Sim, contava – um, dois, três… Em verdade já estava no número quatro quando primeiro lhe ouvi, mas ele continuava a contar, à medida que a senhora colocava saco por saco no outro carrinho.

Fiquei fascinada. Ele estava ali, não sei se com fome, não sei se sozinho, só sei que contando. Não era fome, nem piedade, era concentração. E então eu virei o cachorro, a olhar, dessa vez, para o brinquedo, tamanha curiosidade tinha ao presenciar o fato. A fascinação acabou com um pouco de indignação, quando outro menino, alguns anos mais velho, com a mesma cara comum de menino de rua, que é menino sem cara, aproximou-se e agarrou o menor pelo pescoço, numa saudação violenta. O outro não largava, continuava a apertar o pescoço e o rosto do pequeno contra sua axila. O pequeno levantava a voz para pedir socorro. Comecei a ter medo. Pensava que eles brigariam. Falariam coisas horríveis, deviam estar bêbados. Iam atracar-se como cachorros, mas eram apenas crianças.

E lembrei-me da porta.

A visão mais uma vez criou uma porta, dessa vez sem substância atômica, e, fatalmente, o menino atacava seu semelhante. Mas, novamente, as ondas sonoras racharam o vidro e atravessou-se a saída. O menino brincava. Um tanto quanto violentamente, mas apenas desafiava o contador a continuar contando, sem visualizar os sacos de feijão transferidos pela mulher.

E o pequeno perdeu a conta à proporção que, depois de outra porta quebrada, eu perdia a sequência de minhas reflexões. Perdia-as num universo de vergonha. Vergonha, pois, ao atravessar outra porta, eu percebia que eu tive antes medo dos meninos, que medo pelos meninos.

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Este post foi publicado em 10/09pmSat, 07 Sep 2013 20:34:25 +0000/2012 às 8:34 PM. Ele está arquivado em Sem categoria e marcado , , , , , . Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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